Faz muito tempo. Tentei lembrar usando a minha própria memória, fiz um tremendo esforço e altas contas matemáticas, tomando como ponto de partida a minha idade atual. O máximo que consegui foi: eu era adolescente.
Minha prima acabara de se casar e, portanto, estava adquirindo móveis novos. Aos poucos a casa era construída por dentro. E, naquele dia, o montador viria montar o guarda-roupa. Sei que ficou pleonástico dizer: montador montar. Mas não consegui outro vocábulo.
E enquanto escrevo essas linhas, meu coração dispara.
Acho, então, que tinha uns 15 anos?! Por aí. A minha prima estava na cozinha com a minha tia, o montador no quarto montando o guarda-roupa. Eu cheguei. Alguém disse: Vai lá ajudar o moço.
Agora meu coração disparou consideravelmente.
A primeira vez que tive que contar o que aconteceu naqueles minutos que pareceram uma eternidade foi muitos anos depois. Contei aos prantos enquanto tremia. Assim como estou tremendo agora. Contei que ouvia a voz da minha prima e da tia na cozinha. “E por que elas não vêm até o quarto? Por que eu tive que ir até lá ajudar?”
E a memória daquele homem asqueroso me acompanhará para sempre. Cheguei para ajudar. Ele foi muito rápido, me encurralou dentro de uma parte do guarda-roupa já montado. Ele me encostou com os braços, me apertou, se esfregou, me cheirou. Maldito! E eu não conseguia sair de lá. Ele disse coisas. Nojento! Enquanto isso ouvia a conversa da minha tia e da minha prima na cozinha. Não pude gritar, estava apavorada. “Como isso pode estar acontecendo, meu Deus?!”
Finalmente consegui me desvencilhar, passei pela cozinha correndo, elas não me podiam ver chorando. Correndo subi as escadas e fui para casa. Homem maldito! Homem maldito!
Poucos Minutos. Uma eternidade. Minha vida.
Caro leitor, obrigada pelo trabalho que você teve em clicar no link, vir até aqui e ler tudo.
A história acima é verídica. Por muitos anos a escondi por medo e vergonha. Um dia decidi contar e, para a minha alegria, me libertei deste trauma. Entretanto, a passagem fará para sempre parte do meu histórico de vida. E, histórias semelhantes a essa são corriqueiras. Infelizmente. Já ouvi de outras pessoas histórias de abusos, por desconhecidos, conhecidos, familiares, pais...
Agora, a minha história é sua também. E, por favor, observem sempre os adultos.
